Projeto de iluminação cênica para o Festival Mosaico Cultural.

O primeiro projeto realizado pela Luz em Movimento neste ano de 2020 foi o projeto Festival Mosaico Cultural. Ano em que vivemos uma pandemia provocada pelo COVID-19, que desencadeou no isolamento social e consecutivamente paralisou o mercado das artes no Brasil e no mundo. Diante o desafio de produzir um festival virtual, o Mosaico Cultural realizou o evento em forma de transmissão ao vivo pelo canal do YouTube. Nossa parceria com este festiva ficou a cargo do desenho de luz para o projeto Criolina Instrumental.


A música estará bem representada em duas iniciativas de núcleos propulsores do setor no DF: o Criolina Instrumental e o projeto Utopia. Atuante na noite do DF há 15 anos, o Criolina transmitirá os shows da cervejaria homônima – sem plateia -, contemplando 16 grupos selecionados pelo Coletivo, destacando o protagonismo da música instrumental da cidade, que se revezam em oito dias de programação. No line-up figuram: Gypsy Jazz Club, Funqquestra, Passo Largo, Muntchako, Face Quarteto, Esdras Nogueira e Grupo, Paula Zimbres, Zé Krishna e Amigos Eternos, Pablo Fagundes Grupo, Forró Red Light convida Martinha do Coco, Brasília Samba Jazz, Bradixie Band, Rodrigo Bezerra e Grupo, Ian Coury Trio, Marlene Souza Lima e Capivara Brass Band. Ao final da programação, o coletivo Criolina apresenta ainda uma edição especial de sua festa virtual Tela Plana, sucesso de público ao longo do período de isolamento social. (http://mosaicoculturaldf.com.br/quem-somos/)

Para realizar a escrita deste trabalho, decidi abordar o processo de criação baseado no capítulo nº 9 do livro The Stage Lighting Handbook de Francis Reid. Neste capítulo o autor trata dos processos básicos para implementar um desenho de luz. Este capítulo tem livre tradução para o português no canal Luz em Movimento. (https://www.youtube.com/watch?v=0Km1Tf6sSlE)

Reid (1977, p. 90) coloca alguns pontos importantes para a compreensão do papel do iluminador dentro da construção de uma obra de arte, entendendo que todo o processo criativo precisa de uma organização sistêmica para auxiliar na execução do desenho de luz. Para produzir um desenho de iluminação Reid propõe alguns passos à trilhar pelo universo incrível da criação e nos ajuda a sistematizar este processo.


Estudo do texto

Neste projeto temos uma curadoria que realizou uma programação de música com um conceito muito claro: A pluralidade da música instrumental na cena Brasiliense. A palavra " Mosaico cultural " ( francês : "la mosaïque culturelle" ) é a mistura de grupos étnicos , línguas e culturas que coexistem na sociedade. O texto neste caso é a programação, que identifica cada grupo musical participante do projeto, e coloca uma sequencia logica e conceitual criada pelo curador Rodrigo Barata.

Seguindo a orientação do autor. No campo da música, este nos aponta para a necessidade de se escutar a música até absorver suas nuances e entender suas caraterísticas. Esse estudo ajuda a estimular ideias para o desenho de luz. (Reid. 1977, p. 90). Neste caso teríamos 16 grupos musicais e mais de 100 músicas para escutar. Parece muito? Para mim que estava a mais de 7 meses sem trabalho foi um deleite. Portanto meu estudo do texto se deu através da programação, que definiu uma ordem conceitual a partir da curadoria. Por se tratar de um festival de música instrumental, sem letra na música, me debrucei em escutar as músicas e entender um pouco do estilo de composição de cada artista.

As apresentações musicais transmitidas ao vivo, sem público, seriam quinta-feira e Sábado.

Programação


26/09 – Sábado.

20h: Gypsy Jazz Club

22h: Funqquestra

01/10 – Quinta-feira

20h: Passo Largo

22h: Muntchako

03/10 – Sábado.

20h: Face Quarteto

22h: Esdras Nogueira e Grupo

08/10 – Quinta-feira.

20h: Paula Zimbres - autoral

22h: Zé Krishna e Amigos Eternos - autoral

10/10 – Sábado.

20h: Pablo Fagundes Grupo

22h: Forró Red Light + Martinha do Coco

15/10 – Quinta-feira

20h: Brasília Samba Jazz

22h: Bradixie Band

17/10 - Sábado

20h: Rodrigo Bezerra Grupo

22h: Ian Coury Trio

22/10 – Quinta-feira

20h: Marlene Souza Lima

22h: Capivara Brass Band

24/10 - Sábado

FESTA DE ENCERRAMENTO

TELA PLANA

DJS

(será pelo zoom)


Discussões com a equipe de criação que compõe o projeto.

Esta é uma etapa importante no trabalho de construção do desenho de iluminação. É o momento em que o iluminador deve se familiarizar com diversos fatores relativo à construção do espaço para executar o trabalho. Segundo Reid (1977, p.92) não significa que o iluminador deve dar uma opinião a respeito da disposição dos objetos em cena, nem se este tem a cor azul ou amarelada, e sim de observar a construção do espaço proposta pela direção, ou pelo responsável pela cenografia, afim de avaliar juntamente com a equipe a idealização da estrutura pensada para o palco, e sugerir alguma alteração se ao observar este plano de cenografia, encontrar problemas para a execução da iluminação. O autor ainda nos chama a atenção sobre um dos maiores problemas de uma produção de um espetáculo: a comunicação. Nesta etapa do trabalho de pré-produção é necessário que o iluminador tente descrever a equipe de criação suas ideias, utilizando story boards, sequencia de desenhos que ilustram as ideias da luz, e os elementos de luz utilizados para efeitos, que objetos serão iluminados? E como serão iluminados?

Neste projeto a equipe de criação foi inicialmente composta por curadoria, coordenação de montagem e transmissão, direção técnica, sonorização e iluminação. O espaço para a realização do projeto foi o galpão da Cervejaria Criolina que durante este período de isolamento social estava disponível para acolher o projeto. O local escolhido pelo curador tem uma característica fundamental, já era um espaço onde se realizavam shows de música de diversas linguagens. Portanto o espaço físico já contava com uma estrutura mínima para execução do projeto.

Durante alguns encontros virtuais e dois encontros presenciais no local onde fica o galpão da Cervejaria Criolina, a equipe de criação do projeto discutiu sobre as possibilidades de composição do espaço, ideias de planos para filmagem e locais para realizar as filmagens. Nestas visitas começam as minhas dúvidas com relação a iluminação para captura de vídeo, o que é completamente distinta da iluminação para o olho humano em apresentações ao vivo. Apesar de ter alguma experiência com o assunto[1], este projeto me coloca um desafio. Como pensar a iluminação de diversos shows para transmissão ao vivo? Minha primeira orientação vinda do diretor técnico foi com relação as mudanças bruscas na iluminação. Essa questão está relacionada diretamente ao diafragma da câmera (que regula a entrada de luz capturada pela câmera de vídeo) que necessita de uma regulagem manual para compensar a falta ou a saturação da luz. O que o público vai assistir é o que a câmera está captando como imagem, portanto a luz deve favorecer essa captura de imagem.

Outra questão levantada pela equipe técnica, foi com relação aos equipamentos utilizados para a iluminação. A orientação foi para utilizar equipamentos de luz quente (com lâmpadas de tungstênio) que se aproxima mais ao tom da pele.

Uma outra questão importante com relação a luz é existência de uma tela de projeção que ocupa todo o fundo do galpão. A tela possui 9 metros de largura por 4 metros de altura. Além da luz, teríamos uma projeção frontal ocupando uma das paredes do galpão. As imagens seriam projetadas por um projetor de 20mil ansilumens. Portanto teria que ser extremamente rigoroso em compor as cenas para buscar um equilíbrio entre as luzes que vão compor o meu desenho e a luz das imagens projetadas na tela aumentando a complexibilidade do trabalho.

Foto do galpão da Cervejaria Criolina na montagem da tela de projeção e iluminação.


Com relação a utilização do espaço físico, decidimos juntos em não utilizar um palco atrás da tela. Esta opção nos amplia o campo de atuação no espaço podendo executar os shows em diferentes posições dentro do galpão. Sem mencionar que teríamos mais espaço livre para a circulação das câmeras. Além do espaço central do galpão que chamamos de palco principal o espaço conta também com uma área externa e um bar.

Todas estas informações foram anotadas e meu diário de bordo, (um caderno onde registro todas as informações referentes aos projetos que desenho) incluindo as informações técnicas como dimensões do espaço, dimensões da estrutura de varas de iluminação, quadro de energia e equipamentos disponíveis no local.


Decisões sobre o estilo

Raid (1977, p. 92), nos indica que durantes estas discussões com a equipe, fique claro um importante acordo. Entre a equipe de criação deve haver um acordo com relação ao estilo que será adotado para o projeto. Todos os artistas que iriam participar do festival são compositores contemporâneos de música instrumental. Então a Musica Instrumental Contemporânea foi o tema de estilo adotado inicialmente para todos os membros da equipe de criação. O autor ainda nos coloca que pode haver mudanças no decorrer do processo, mas deve haver sempre um consenso entre todos os membros da equipe de como o projeto será encenado e qual será a contribuição a ser feita pela iluminação. Outra informação importante com relação ao estilo, veio através do diretor técnico que comentou sobre a forma como estava pensando em abordar a filmagem, explicando que os planos de filmagem seriam diferenciados, que adotaria deste um plano geral à closes, movimentos de câmera em grua e câmeras na mão de cinegrafistas, buscando um estilo de filmagem que se aproximasse mais a filmagem de um DVD ao vivo. A partir desta informação fui pesquisar o que estava acontecendo neste ano de 2020 em relação a transmissão ao vivo de shows, única forma de apresentação possível em meio a pandemia. Buscando referências me deparei com apresentações que iam desde transmissão em preto e branco como o trabalho de Jorge Drexler (https://www.youtube.com/watch?v=KnsFbj0Z-FI) até a apresentação live Festa do Gil realizada pelo artista em sua casa (https://www.youtube.com/watch?v=s6KB4dDmrcw)

A cada pesquisa sobre o assunto transmissão a o vivo, uma coisa estava ficando clara para mim. A luz poderia exercer uma função estética e artística, mas teria que ter como função primeira iluminar a cena para a câmera. Os efeitos de luzes quando acontecerem devem ser combinados com o diretor de edição para que pudessem ser registrados pelas câmeras que são o olho do público. Para isso os ensaios seriam muito importantes.


Ensaios

Como realizar ensaios em meios uma pandemia que impõe o isolamento social? Nosso autor coloca o ensaio como matéria prima para ajudar no desenvolvimento do desenho de luz. Raid (1977, p. 93) enfatiza a importância do iluminador nos ensaios para coletar informações importantes para sua criação. Mas neste projeto os ensaios iriam acontecer horas antes do show. Por tanto, não teria ensaios anteriores a apresentação e as únicas informações com relação a cada apresentação era; o mapa de palco (posicionamento dos músicos no palco) de cada banda, seu repertório e o banco de imagens que seriam projetadas em cada apresentação. Diante desta situação, me deparei com a seguinte questão: Como vou tentar trazer um desenho de luz diferente para cada uma das 16 apresentações? Como pensar tudo isso com apenas duas semanas para o início do projeto? Sem ensaios? Minha solução para estas perguntas foi realizar um desenho para cada dia de apresentação o que diminui para 8 o número de desenhos.

Mapas de luz

Segundo Reid (1977, p. 93) “Um plano de iluminação tem duas funções: preparação e comunicação. É a folha de papel na qual os lighting designers de fato elaboram como iluminarão o show”. Neste plano deve conter os instrumentos a serem usados, seu posicionamento, quais terão filtros de cor, quais dimmers alimentarão os equipamentos, quantos Muving lights e multiparâmetros e onde serão focalizados. A primeira função de um plano de iluminação é a preparação. Para isso elaborei uma série de planos, um para cada semana, como sugestões de posicionamento das bandas e uma cenografia que dialogasse com o conceito escolhido pela curadoria. Estes planos ajudariam a dialogar com a equipe de criação, de forma a pensar em tentar trazer sempre algo novo ao mesmo espaço. Os planos também servem para a gente visualizar o posicionamento das bandas e os espaços que estariam disponíveis para o posicionamento das câmeras. Criei um grupo de comunicação no WhatsApp para facilitar a comunicação com a equipe de criação e poder enviar para todos as sugestões de planos de iluminação.

A primeira ideia foi apresentar um plano geral, onde as luzes posicionadas no grid de luz do teto, pudessem servir para um formato circular de palco necessitando apenas de afinação para modificar o desenho, sem necessidade de remover os equipamentos de lugar.


Foto: Arquivo Pessoal. Mapa de luz Inicial – 1º versão para o Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina – 26/09/2020 Brasília. DF.

Em seguida comecei a enviar os planos de luz para a equipe de criação para sugerir um posicionamento das bandas no espaço, seguindo o mapa de palco de cada banda, (enviado para a produção previamente) e algumas sugestões de cenografia.

Estreia. 1º semana

26/09 – Sábado.

20h: Gypsy Jazz Club

Local: Balcão (Reflexos, Espelhos. Materiais convencionais que se transformam, (Abajur estilizado)



26/09 – Sábado.

22h: Funqquestra

Palco principal - Palco no formato tradicional com os músicos no centro e a tela de projeção ao fundo.

Cenografia - toneis de chope em formato circular com uma fita de ledo PIXEL desenhando o contorno desta cenografia no chão.



01/10 – Quinta-feira – 2º semana

20h: Passo Largo

Passo Largo - (formação com 3 músicos - com mapa de palco)

Local: Balcão

Cenografia - Tela de galinheiro fixada na parede ou mesmo colocada de forma informe (para criar uma textura desuniforme na parede de azulejos branca para projeção) referencia em anexo. Mistura de luz e projeção neste cenário.

2 projetores colocados no chão ou em cima do balcão com imagem destorcida. (Imagens são texturas) pensando em um aplano aberto.

Luzes frontais no chão para gerar sobra no fundo ampliada.

Infelizmente por conta descoberta de algumas dificuldades de gravar no Balcão (principalmente pelo curto tempo de mudança entre uma banda e outra) as apresentações passaram a ser gravadas no Palco Principal.

01/10 – Quinta-feira - 22h: Munchako - segundo show

Local: Espaço Central. Sugestão de mudança de layout. Mudança na posição das bandas para quinta e sábado.

Cenografia: Bancos, mesas e barris de chope colocados para compor uma cenografia uniforme para todos os músicos. A tela para projeção seria utilizada a grade com latinhas da cerveja criolina.


03/10 – Sábado.

20h: Face Quarteto

Local: Balcão

Cenografia - BAR - organizar no balcão um bar com bebidas (sem rótulo de preferencia), copos e se possível um ator/garçom para realizar esta atuação de fazer drinks e limpar o bar.

A luz seria uma luz geral dando destaque a 4 pendentes ou 4 refletores pequenos instalados em trilho Altrack.


22h: Esdras Nogueira e Grupo

Local: Espaço Central. Mantendo o mesmo local apenas retirando todos os objetos. Deixando só a banda no chão e a parede de latas ao fundo.

Cenografia: Vazio/Exílio.

A luz tem silhuetas, contra luzes e laterais. Cor: vermelho e Branco. Projeção: Material do artista.

08/10 – Quinta-feira – 3º Semana.

20h: Paula Zimbres – autoral

Cenografia: Bancos em formato e estrela. Mesas normais. Câmera no teto.


22h: Zé Krishna e Amigos Eternos - autoral

Cenografia: Bancos em formato de estrela. Mesas em pé

Os músicos estão pintados de azul. (Principalmente no rosto, espero que eles tenham um figurino que contraste)


10/10 – Sábado.

20h: Pablo Fagundes Grupo

Cenografia: composição dos cases com ribaltas de Led. Um tecido no fundo ou mesmo a própria parede para fazer uma base para luzes no chão.

22h: Forró Red Light + Martinha do Coco

INÍCIO DO PROCESSO


Iniciamos a montagem do mapa inicial com a formação da Funqorquestra no dia 22 de setembro, quatro dias antes do início do festival. Os equipamentos foram montados no grid existente no espaço.



Para a montagem dos equipamentos, foram seguidos os protocolos de higiene para o Festival Mosaico Cultural (protocolo em anexo nas referências bibliográficas). No dia da montagem de luz apenas a equipe de iluminação permaneceu no local. Foi disponibilizado álcool 70% em spray e álcool gel, máscaras e luvas. A montagem iniciou as 21:00 do dia 22/09 e foi até as 02:00 do dia 23/09 totalizando cinco horas de trabalho.

Saímos do Galpão da Cervejaria Criolina com o sistema de iluminação montado e testado, com o grid na altura correta para afinar as luzes no teste de quinta-feira dia 24/09.

Realizamos a afinação das luzes e um ensaio dia 26/09 que foi gravado, mas não listado no canal, disponível apenas para conferência da equipe de criação.

Enfim a estreia. E com ela diversos ajustes.


Foto: Yuri Alvetti. Apresentação do Gypsy Jazz Club no Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina – Brasília. DF. 2020.

Iniciamos a transmissão de abertura do festival utilizando o Bar como cenário para a primeira apresentação. O Bar como local para gravação é muito interessante, porém traz limitações que precisavam de mais tempo para serem exploradas. Enquadramentos, cenografia, luz e uma coluna de ferro bem no meio do espaço que dificultava planos abertos. Além de outro fator que é o deslocamento das câmeras. O tempo para reposicionar as câmeras para o palco principal era muito curto.

A apresentadora Ana Luiza Belacosta, uma negra linda apresentava a programação do Festival. Mais uma pergunta. Como calibrar a luz para a pele negra? E o cabelo também negro?

A solução veio em iluminar do alto e de frente com um elipso ETC 36º um pouco desfocado sem filtro, e dois ML Giotto 400 frontais cruzados em diagonal com filtro half CTO[2], para equilibrar as sombras. Mais dois ML Giotto 400 posicionados no fundo faziam a contra luz que iluminava o cabelo de proporcionava ver seu volume. A calibragem da intensidade era por cada aparelho, sempre com o monitor como referência.


Foto: Yuri Alvetti. Apresentadora Ana Luiza Belacosta no Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina 09/2020 – Brasília. DF.


Durante outros dias foram gravados as cabeças de entrada da apresentadora. Pequenos vídeos de apresentação das atividades, que seriam editados e inseridos na programação do Festival. Com a mesma cenografia e a mesma luz só alternando o figurino e o texto.

Logo após a apresentadora entra a última banda deste dia. A apresentação foi da banda Funqquestra. A transmissão começou sem som para o público. Ouve um corte na transmissão e retomamos em um minuto e meio com a transmissão completa. A luz não estava igual para todas as câmeras. E isso me fez ficar tentando achar a melhor calibragem para as diferentes opções selecionadas pelo editor. Isso foi muito difícil porque, quando eu alterava a luz para ajustar a imagem para uma câmera, e o editor de edição mudava para outra câmera, está estava com a luz estourada. Foi uma ginastica. Um exercício de sobe e desce de intensidade que me deixou muito tenso e apreensivo. Eu ainda estava buscando reproduzir os efeitos que seriam vistos pelo público em um show que está sendo gravado por câmeras, sem público.


Foto: Yuri Alvetti. Apresentação Funqquestra no Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina – 09/2020 Brasília. DF.

Essas e outras falhas durante nossa transmissão provocou uma grande ideia na direção do Festival, chamar pessoas ligadas ao cinema que dariam apoio para executar da melhor forma o visual das apresentações que seriam transmitidas daqui para frente.

A partir deste dia duas novas integrante entraram na equipe de criação a convite da direção do projeto para ajudar na filmagem. Joanna Ramos assumiu a Direção de fotografia e Cláudia Daibert a Direção de VT. A chegada destas profissionais que trabalham na área do cinema trouxe novos olhares sobre a o espaço e a cenografia, colocando diversos aspectos da direção de arte, os planos a serem filmados, enquadramentos e sobre o estilo de edição ao vivo. Todas estas mudanças me aproximaram ainda mais ao entendimento da linguagem cinematográfica que mudou por completo a maneira de compor e operar a luz.

O monitor intalado bem na minha frente seria a minha referência, nele apareciam as imagens que o público estava vendo. Ou seja, eu deixei de olhar a cena e me preocupar em executar a luz como um show ao vivo, e passei a observar o monitor de vídeo e estar atento a luz que estava sendo captada pelas câmeras e transmitidas ao vivo. Esse exercício mudou por completo a minha experiência. É como mudar uma chave seletora, agora minha preocupação era estabelecer uma boa luz para a captura de vídeo. Uma luz praticamente parada e sem efeitos. Uma luz voltada exclusivamente para a fotografia. Passei então há utilizar luzes no chão e luzes laterais para provocar outros tipos de enquadramentos e poder movimentar algumas luzes entre uma banda e outra.

Assim fomos adotando um modelo de filmagem direcionado para trabalhar apenas em um espaço; o centro do galpão. Buscando a tela de projeção no fundo como um cenário virtual, com a banda na frente. Essa disposição possibilita a circulação das câmeras e amplia as possibilidades de enquadramento. Porém a luz do projetor pegava no rosto dos artistas, o que em alguns casos foi adotada como linguagem e em outros momentos foi regulada a intensidade juntamente com a equipe de VDj. Ouve mudança nos planos de iluminação inicias, incluindo mais luzes de chão, laterais de tungstênio e ML beam. Nosso Mapa de luz inicial se transformou.

Foto: Arquivo Pessoal. Mapa de luz Inicial – 3º versão para o Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina – 09/2020 Brasília. DF.

Foto: Yuri Alvetti. Cenografia para o Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina – 09/2020 Brasília. DF.

Foto: Yuri Alvetti. Cenografia para o Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina – 09/2020 Brasília. DF.


Decisões de desenho no papel


A partir desta nova configuração de mapa posso relacionar alguns fatores que Reid (1977, p. 95) coloca como anotações que ajudam a aproximar o desenho da sua função que é comunicar o que está pensando o iluminador.

Identificando áreas

Neste tópico o autor sugere que determine áreas para facilitar a identificação dos aparelhos no mapa. Neste caso como estamos trabalhando com desenho de luz em CAD (computador) vamos trabalhar com a ferramenta Focus Point para determinar as áreas de luz que são importantes. As áreas serão definidas com 8 letras:

A – Apresentadora

B – Região central (dividida em B1 esq e B2 dir)

C – Áreas esquerda

D – Áreas Direita

E – Meio

F – Latas de Chopp

G – Flores esquerda fundo.

H – Latas cenográficas

Estas áreas vão formar mais tarde nosso plano de sequencias de deixas, será através delas que vamos desenhar os quadros juntamente com a equipe de direção e fotografia.

Foto: Arquivo Pessoal. Mapa de luz Inicial – 3º versão. Vista de corte frontal. Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina – 09/2020 Brasília. DF.


O Focus Point ajuda a entender onde a luz se propaga no chão e onde ela ilumina o rosto dos atores quando visualizamos em 3d.


Identificando cores


Outra relação muito interessante de observar é que o autor coloca as cores distribuídas por áreas. No nosso caso a cor foi adicionada nos objetos de cenografia em volta do espaço como barris de choop e algumas plantas. O bar também foi iluminado para dar profundidade no quadro.

A inclusão das lâmpadas LEDs no desenho, serviriam para adicionar cores ao ambiente. Mas a impressão da cor deve ser muito sutil no caso da captura de vídeo, pois o led satura e distorce a cor quando aplicado com muita intensidade. Notei também que a calibragem das cores R, G, B (vermelho, verde e Azul) necessitava de ajustes para a câmera, por exemplo: a cor azul quando exposta com muita intensidade se torna roxa ou magenta saturado. A cor vermelha torna-se laranja. Quando realizo uma mistura de cores, essa cor deve ser gravada com a intensidade que vai ser exposta na cena pois a mistura das cores acontece por graduação, ou seja, se temos a mistura de vermelho 60% e verde 7% para criar o Âmbar ideal para a captação do vídeo devemos estar atentos para trabalhar com a mudança de intensidade (dimmer) e não com a mudança de mistura de cores R, G, B W. Isso ocorre porque eu estou trabalhando com uma lâmpada que possui diversos leds, e as cores são obtidas através da mistura de cores de quatro grupos de leds. O que provoca desequilíbrio pois, até o fader chegar à intensidade máxima que foi gravado temos a cor se ajustando (até chegar a sua coloração sugerida) juntamente com a intensidade. O que não ocorreria se fosse somente uma fonte de luz de led que realizasse a mistura de cores. Ou se essa fosse realizada por um disco CMY.

Foto: Yuri Alvetti. Apresentação Marlene Souza Lima no Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina – 09/2020 Brasília. DF.

Decidindo equipamentos especiais


Para este festival, contei com a possibilidade de trabalhar com Muving Lights, multiparâmetros e controle de conteúdo de projeção através da conexão da mesa de luz com outros computadores alocados no espaço. Estes recursos ajudaram a solucionar diversas dificuldades de correção de posicionamento de luz e troca de cores sem a necessidade de parar o set de filmagem para por escada.

Mas Reid (1977, p. 95) nos coloca duas categorias de aparelhos. O que aparelhos que vão iluminar algumas características do show (geral, contra-luzes, focos). E os aparelhos que vão iluminar os atores em momentos específicos. Efeitos que certamente não serão utilizados em outro momento.

No caso deste plano de luz nós temos mais refletores convencionais com lâmpada de tungstênio que multiparâmetros. A base de luz para a captação é de temperatura 3200k até 3800K. Isso porque a maior parte dos equipamentos de led estavam iluminando a cenografia. E os Muving Light Giotto400 estavam trabalhando com um filtro CTO para aproximar a temperatura de luz da luz do dia. Os refletores da categoria especial, seriam os refletores laterais 02 PCs soltos com base de chão, 02 PCs em tripés e 2 Par 56 #1 (loco Light) soltos em base de chão.


Estabelecendo Prioridades


Este item diz respeito a gastos de locação de equipamentos e matérias. Reid (1977, p. 96) nos leva a observar qual a importância de se dispor os recursos do projeto para locar equipamentos, e qual sua resposta ao projeto? Então me fiz algumas perguntas. Porque a necessidade de ter luzes que se movimentam quando a luz deve permanecer fixa, sem muitas variações para uma boa captação?

Algumas questões foram levadas em consideração na locação dos equipamentos. A primeira se relaciona diretamente com a potencia do disjuntor disponível para ligar os equipamentos de luz. Ou seja, eu teria que montar um sistema de luz, então as minhas possibilidades de composição diferentes de equipamentos de iluminação, estava intimamente relacionada a capacidade de energia disponível no local. Nós contávamos com um disjuntor tri-fásico de 50amp. Isso limitou a carga de dimmers para as luzes convencionais. Portanto resolvi equilibrar utilizando os multiparâmetros, muving lights e refletores com lâmpadas de led que consomem menos energia. Portanto o Norte e o limitador para a escolha dos equipamentos aqui neste caso era a capacidade de energia disponível no espaço.


Escolhendo a posição dos instrumentos


Durante nossas discussões sobre como seriam posicionadas as bandas, uma questão era bem clara. Não colocaríamos um palco para poder explorar a área retangular em toda sua possibilidade. Posicionar a banda no centro permite circular com as câmeras, ter diversos ângulos e enquadramentos. A tela ao fundo nos dava uma moldura virtual. E a luz deveria facilitar essa captação de imagens. Portanto revolvi fixar as luzes do teto tentando dispor os equipamentos em uma ordem circular obedecendo os cantos do grid.


Toda a luz converge para o centro do espaço como podemos ver na posição dos Focus Point B,C,D,E.

Escolhendo instrumentos


A escolha dos aparelhos, são para sempre ter uma boa luz em um bom ângulo, porém devemos estar atentos que mudanças podem acontecer e novas necessidades surgirem. No caso deste projeto com a chegada da direção de VT e fotografia alguns equipamentos foram relocados e colocados no chão nas laterais do espaço para ampliar as possibilidades de luz, sem ser uma luz que venha do teto e ilumine o piso. Todos os dias de transmissão, contávamos com um técnico em iluminação para afinar as luzes do alto e ajustar luzes do chão. Dentro deste mesmo mapa eu poderia escolher os refletores que fariam a base da iluminação da primeira banda e quais seriam os refletores bases da segunda banda do dia. A escolha dependia da formação da banda. Quando a banda ocupava mais espaço eu utilizava as PAR 64 para iluminar. Quando era um número pequeno utilizava os focos de Pcs. Mas isso dependia muito também do conceito musical e da proposta da direção. Mas uma coisa ficou clara; O piso refletia demais a luz que vinha do teto, portanto era fundamental ter a luz bem afinada sem muitos vazamentos.


Foto: Yuri Alvetti. Apresentação Esdras Nogueira e Grupo no Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina – 09/2020 Brasília. DF.

Selecionando Filtros


Para este trabalho não utilizei filtros nos refletores convencionais. Trabalhei somente com o controle da luz na intensidade da gama de 2900k até 3800k. As cores que aparecem nas fotos são dos PAR Leds e Wash LED. Não são filtros.


Foto: Yuri Alvetti. Apresentação Bradixie Band no Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina – 09/2020 Brasília. DF.


A sinopses das deixas ou Roteiro


Nesse tópico nosso autor se refere a construção de um roteiro construído passo a passo, com cenas gravadas uma após a outra. Quando o autor faz isso ele nos remete a forma de gravação de um espetáculo de teatro, uma ópera, um musical, algo que possua uma narrativa dramática baseada em um texto. Assim a luz ao vivo faz o papel de editar o que o público vê a cada momento para seguir o fluxo da narrativa. Neste caso a edição do que o público vê é a edição que a direção de VT faz ao vivo. Funciona como olhos de uma aranha. Um grande monitor passa ao vivo todas as câmeras simultâneas e o diretor escolhe na hora o que o público está vendo. É fantástico. Porém a luz tem que permitir que as câmeras capturem a imagem.

Para a boa captação do vídeo optei por trabalhar com cenas gravadas em faders que seriam as bases para a boa captação das câmeras. E outros faders com efeitos nos cenários. Cores, gobos etc.

Neste festival que acontece com transmissão ao vivo, o roteiro que existia já na programação, foi decupado com a ordem de entrada do dia. Ex: Cartela de abertura, Apresentadora, banda 1, cartela, apresentadora, banda 2, apresentadora, cartela final. Cada banda tinha seu set list (lista de musicas que seriam tocadas na transmissão) e dentro deste set uma música que seria a gravação “especial”. Este set list apresentava algumas características de estilo e alguns até mesmo cores a serem usadas no show. O que ajudou muito a construir esse roteiro do dia.

Uma importante questão com relação a operação das luzes ao vivo é a intensidade da luz. Uma vez calibrada para as câmeras a luz se tiver algum movimento de intensidade, deve ser para menos nunca para mais, evitando a saturação e a distorção da imagem.

Foto: Yuri Alvetti. Apresentação Forró Red Light + Martinha do Coco no Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina – 09/2020 Brasília. DF.

Outra questão importante de observar foi a relação do piso com a luz. O piso liso se tornou um espelho para a luz que incidia do alto. Principalmente quando os músicos estavam muito próximos e se movimentavam muito. Neste caso, um tapete no chão ajudou a absorver a luz e tornar o ambiente mais escuro.

Foto: Yuri Alvetti. Apresentação Esdras Nogueira e Grupo no Festival Mosaico Cultural transmitido ao vivo as Cervejaria Criolina – 26/09/2020 Brasília. DF.

Comunicando intenções


Umas das ciosas importantes no final do capítulo é quando o autor fala sobre a comunicação. O quanto é importante estar comunicando a equipe as intenções do desenho de luz. Sempre em forma de sugestões porque caso elas não forem de encontro ao desejo do diretor elas devem ser mudadas. Estar atento ao roteiro. Alertar se perceber alguma coisa inusitada ou grave. A perda de algum equipamento fundamental.


Checando as intenções


Checar as intenções é checar as propostas de desenho de luz durante a pré-produção ou ensaios. Revisitar anotações e escutar atentamente as orientações da equipe de direção. Isso ajuda a entender cada vez mais o que estamos fazendo.


Finalizando esta escrita, gostaria de agradecer a todos os envolvidos na produção e na realização deste festival. Esta escrita só foi possível porque o projeto conta com uma equipe de profissionais em todas as áreas. Julgo indispensável realizar um registro da memória deste processo de criação através da escrita e reflexão sobre o universo da iluminação cênica. Um processo de entendimento do fazer prático associado a estudos teóricos, utilizando ferramentas digitais atualizadas para facilitar os processos de criação e participando do contexto histórico mundial em que a produção artística se transforma e se recria diante de uma pandemia que paralisou por completo as manifestações artísticas. Observar este processo de criação deste desenho de luz, a partir da perspectiva da escrita de Francis Reid no capitulo nove de seu livro “The Stage Light Handbook”, que fala sobre o processo de criação de um desenho de iluminação, me permite começar a sistematizar o conhecimento e criar bases para uma metodologia de criação no campo da iluminação cênica voltada para a transmissão ao vivo de espetáculos cênicos.



EQUIPE MOSAICO CULTURAL


GESTÃO

Direção Geral: Micaela Neiva Curadoria: Rodrigo Barata Produção Executiva: Sara Rocha Direção de Produção: Susanna Aune Consultoria de Imagem: Mariana Soares


MONTAGEM, TÉCNICA E TRANSMISSÃO Coordenação de montagem, Transmissão e Técnica: Cleber Machado Direção Técnica: Jay Araújo de Barros Iluminação: Moisez Vasconcelos e Edmar Ferreira Técnico de som: Tom Serralvo e Jota Araújo Técnicos de TI: Abner Leal e Anibal Alexandre Técnicos de Audiovisual: Artur Pessoa e David Ribeiro Farias Cinegrafistas: Caetano Maia Matos e Wanderson Silva “DD” Assistente operacional: Carlos Barros Direção de fotografia CRIOLINA INSTRUMENTAL: Joanna Ramos Direção de VT CRIOLINA INSTRUMENTAL: Cláudia Daibert MC Oficial: Ana Luiza Bellacosta Preparador de elenco e Figurino: Deni Moreira EQUIPE GALPÃO CRIOLINA Assistente administrativo: Gustavo Peixoto Auxiliar de serviços gerais: Fillipe Thomas EQUIPE BOX CIA DE ARTE Coordenação Administrativa: Henrique Rocha Consultoria Jurídica: Cittadino Campos e Antonioli Advogados Associados Advogados: Carolina Suguiura e Thiago Rocha Leandro

Brasília 29/10/2020


Citações

[1] Transmissão do show O grande Encontro 20 anos no Rock in Rio 2017 pela emissora Multishow. (https://multishow.globo.com/especiais/rock-in-rio/noticia/palco-sunset-fica-pequeno-para-tantos-encontros-elba-alceu-e-geraldo-convidam-banda-de-pifanos-ze-do-estado-e-grupo-grial-de-danca.ghtml)

[2] Color Temperature Orange, tipo de gelatina utlizada para correção de temperatura de cor.

Referências

Camargo, Roberto Gill. A função estética da luz. 2º edição. Perspectiva, 2012.

Elli, Sirlin. La luz en el teatro. 1º edição. Atuel, 2005

Esig, Linda. The speed of Light. 1ºedição. Heinemann. 2002.

Reid, Frances. The Stage light hand book. 1977. 6º edição. Routledge. 2002.

Serroni, J.C. Cenografia Brasileira, Edições SESC SP. 2013


Featured Posts
Recent Posts
Archive
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square
Search By Tags
Follow Us